Como balões ensaboados descendo uma rampa lisa sem atrito, os pneus da bicicleta aquaplanavam lá e cá na descida da ladeira no meio da tempestade. A pior parte não era a chuva nem a pressa de fazer todas aquelas entregas no meio da madrugada - era a certeza de que tudo aquilo era consequência das suas próprias escolhas. A contragosto da mãe, Caio tinha decidido trabalhar no jornal, de todas as coisas, como entregador! Era talvez o maior dos arrependimentos dos seus dezoito anos.
Apertou os olhos e tentou deixar a chuva espessa gotejar dos cílios pra não atrapalhar a vista, e no meio da trajetória inevitável de sua descida veloz, viu a silhueta de um gato preto na pista. Abrindo todos os sentidos para reagir, sentindo o sangue pulsando nas têmporas, por muito pouco não perdeu o controle da bicicleta, e reagiu a tempo suficiente pra ter impressão de passar bem ao lado do felino, que continuava parado e impassível no mesmo lugar, como se nada estivesse acontecendo ao seu redor - nem a chuva, nem o vento, nem o ciclista adolescente descendo a ladeira inclinada desafiando a física. O jovem teve um segundo para se sentir aliviado, mas apenas um segundo literal, visto que logo em seguida ao quase-impacto ele sentiu uma pancada na cabeça e a rua inteira desapareceu.